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Prematuridade e asma

Dr. José António Pinheiro Pediatra. Hospital Pediátrico de Coimbra
 
A taxa de prematuridade global, a nível mundial, é atualmente de 11% variando entre 5% em alguns países da Europa e 18% em países africanos. 

Em Portugal, a taxa de prematuridade tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos, situando-se acima da média europeia, cerca de 8% para recém-nascidos com menos de 37 semanas e 1,2% abaixo das 32 semanas. Os avanços tecnológicos aliados ao conhecimento científico têm permitido a sobrevivência de recém-nascidos de idades gestacionais cada vez mais baixas, sendo a redução da morbilidade um dos objetivos major em neonatologia. 

A taxa de mortalidade neonatal é de 1,8/1000 nados vivos o que coloca Portugal no 9º lugar entre 162 países, sendo o nosso país considerado um bom local para nascer e crescer. Todos os anos nascem cerca de 1000 crianças com peso inferior a 1500 gramas. Inúmeras razões são apontadas para o aumento desta taxa, entre as quais a idade materna, tabagismo, recurso a técnicas de procriação medicamente assistida e as melhorias nos cuidados de saúde. 

O SDR do prematuro é a complicação imediata mais conhecida, para o que contribui essencialmente a imaturidade pulmonar. Os cuidados neonatais têm permitido uma significativa redução da mortalidade e a sobrevivência de muitas crianças nascidas prematuramente. Estes progressos trazem porém consequências futuras a nível metabólico, respiratório, psicomotor, sensorial, entre outros. 

A maioria das crianças com asma inicia sintomas nos primeiros anos de vida, o que pressupõe um contributo de fatores pré ou perinatais. O crescimento fetal e a idade gestacional terão um efeito direto ou indireto no desenvolvimento da asma da criança. A prematuridade, a restrição ao crescimento intrauterino (RCIU) e o baixo peso à nascença podem estar relacionados com alterações na imunocompetência e com a restrição do crescimento e do desenvolvimento pulmonar. 

Constata-se um risco aumentado de doenças respiratórias na infância (incluindo pieira recorrente e asma) em crianças nascidas prematuramente. Há hoje uma evidência convincente que a prematuridade aumenta o risco de asma. Esse risco é ainda maior nos RN muito prematuros.

A asma infantil é presentemente encarada como uma síndroma clínico, com vários fenótipos, cujas manifestações resultam de uma complexa interação de fatores que afetam a via aérea – anatómicos, fisiopatológicos e inflamatórios.

 Uma característica dos bebés prematuros e com RCIU é a tendência para um rápido crescimento no primeiro ano de vida (vulgarmente conhecido por catch-up growth) o qual tem sido responsabilizado por várias patologias a longo prazo, nomeadamente asma, doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2 e síndroma metabólico. 

Num passado recente, essa rápida recuperação ponderal era vista com agrado, inclusive por pediatras, como reveladora de um bom estado de saúde do lactente. Nas últimas décadas porém, a imagem do tão apreciado chubby baby constitui um aspeto negativo do crescimento no primeiro ano de vida, pelas consequências que poderá trazer na saúde do indivíduo, a médio e a longo prazo. Serão múltiplos os mecanismos pelos quais este aumento da velocidade de crescimento promove o desenvolvimento de fenótipos de asma, talvez estejam envolvidos fenómenos relacionados com a adiposidade e o estado pro-inflamatório que se lhe associa. 

O aleitamento materno, o menor aporte calórico-proteico e lipídico poderão ser, também por estas razões, medidas a reforçar a prevenção de mais uma patologia – a asma. Pena é que os estudos até agora realizados não tenham conseguido provar essa relação direta. O que parece não deixar dúvidas hoje em dia é que, tanto a asma como a obesidade, tendo ambas causas multifatoriais, se relacionam em termos de comorbilidade, gravidade e prevalência. Será assim mais um contributo a pedir aos Pediatras para a prevenção destas doenças crónicas tão prevalentes e com custo socioeconómico tão elevado. 
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