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Alergia Alimentar: Mitos e Realidades

Dr. António Jorge Cabral, Pediatra, Hospital Central do Funchal
 
A alergia alimentar consiste numa resposta anormal à ingestão, contacto ou inalação de um alimento ou aditivos alimentares. Engloba reacções imunomediadas, sendo a causa mais frequente de anafilaxia.

Na Europa, estima-se que 6-8% das crianças apresentem alergia alimentar, com implicações na saúde pelo risco de reacções graves e défices nutricionais; sociais por dificuldade de integração e dietas de evicção; e psicológicas por isolamento e bullying. Os alimentos mais frequentemente envolvidos são o leite e o ovo.

As reacções alérgicas podem ser IgE ou não-IgE mediadas. As primeiras surgem até 4 horas após o contacto com o alergénio e englobam urticária e angioedema, exacerbação da rinite e asma, vómitos, diarreia e anafilaxia. As não-IgE mediadas são tardias e na maioria gastrointestinais como a enterocolite e proctite. Existem ainda as do tipo misto, como a esofagite eosinofílica e o eczema atópico.

Além da história clínica, essencial para o reconhecimento do alimento suspeito, o diagnóstico assenta em 3 vertentes: testes in vitro, testes cutâneos e prova de provocação oral (PPO). Os primeiros consistem no doseamento da IgE total e específica e no ISAC®, um estudo molecular para a alergia alimentar múltipla. Os testes cutâneos permitem o diagnóstico através de extratos ou do alimento em natureza. A PPO continua o gold-standard devendo ser realizada apenas em meio hospitalar, por profissionais treinados.

Actualmente a evicção é a principal orientação. Porém, a tolerância aos alimentos mais comuns, é alcançada em 68-80% até aos 16 anos. Quando a tolerância não é alcançada, existe a hipótese de dessensibilização, em particular ao leite e ovo.


Mitos

Com IgE específicas positivas para o alimento, deve-se fazer evicção?
A IgE específica apenas indica sensibilização. Uma criança pode estar sensibilizada, mas não apresentar reacção. Não se deve fazer evicção de um alimento que a criança coma, se não houver uma relação directa entre o alimento e a reacção.

Se o Phadiatop® alimentar for positivo, é necessário a evicção de todos os alimentos?
O Phadiatop® é um teste de rastreio para a identificação de várias IgE específicas. A positividade apenas indica sensibilização a um ou mais dos alergénios incluídos. Se negativo, demonstra que a criança não está sensibilizada a nenhum dos alergénios, no entanto, basta estar sensibilizado a um deles para o teste ser positivo. Nessa situação é necessário a pesquisa de IgE específicas ou testes cutâneos, e não a evicção de todos os alimentos incluídos.

Se a mãe for alérgica a um alimento, a criança será alérgica ao mesmo?
A alergia alimentar num dos pais, tal como qualquer manifestação de atopia, confere um factor de risco para atopia na criança. Como a IgE materna não passa a barreia placentária, a criança não terá alergia ao mesmo alimento. No entanto, o contexto genético predispõe ao desenvolvimento de atopia nesta criança que poderá manifestar-se como alergia alimentar ou outra.

A intolerância à lactose é considerada uma alergia?
A alergia alimentar é causada maioritariamente por proteínas, sendo a lactose um açúcar. Esta intolerância deve-se a um defeito da enzima lactase. A sua acumulação causa aerocolia, distensão e dor abdominal, e outra sintomatologia gastrointestinal. Não se trata de uma alergia alimentar. Os leites especiais sem lactose, fornecidos a estas crianças, apenas não contêm este açúcar, sendo semelhantes nos restantes constituintes proteicos. Ressalva-se que os alérgicos não podem ingerir este tipo de leite.
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